O POVO MANCHINERI TRÍPLICE
FRONTEIRA: BRASIL, BOLIVIA E PERU.
Edilene
Machado Barbosa ¹
RESUMO: O presente artigo trata do povo Manchineri,
na terra indígena Mamoadate no rio Acre e rio icuria, mas que viera, na região
da tríplice fronteira amazônica, entre Brasil, Bolívia e Peru. Essa região se
localiza a mais de 360 km de Rio Branco, capital do estado do Acre. Descrevemos
as atuais ações desse povo indígena que tem sido protagonista de inúmeros fatos
relevantes, tanto para eles próprios quanto para servirem de exemplos para
outros povos, indígenas ou não, da região. Iniciamos com um breve resgate
histórico arqueológico e, posteriormente, apresentamos as ações que embasam
nossas reflexões sobre o protagonismo dos Manchineri no Acre. Procuramos
apontar, especialmente, as conquistas Manchineri na área da educação, desde a
primária até a pós-graduação; mostramos, também, que existem integrantes do povo
Manchineri ocupando espaços da administração pública.
PALAVRAS-CHAVE: Manchineri.
Protagonismo. Fronteira.


INTRODUÇÃO
No texto a seguir,
nós, autores, tivemos
como objetivo apresentar o protagonismo dos Manchineri , uma das muitas etnias indígenas
do Brasil, mas que se encontram
espalhados pela região
da tríplice fronteira
brasileira, na área do
baixo Acre Brasil, Peru e Bolívia . Essa
etnia tem contato com os não indígenas há mais de três séculos,
provavelmente.
Os Manchineri têm atuado nessa região
amazônica com certa proeminência em alguns aspectos sociais, sendo,
relativamente, bem- sucedidos em suas interações com os outros grupos do
entorno. Esse sucesso parece-nos se dar devido a um protagonismo baseado em
suas características de ir à busca de seus objetivos.
Pensando nesse sentimento de sempre se
aprofundar acerca da cultural dos Manchineri, de buscar o novo, decidimos
realizar um levantamento sobre os aspectos mais destacados – a nosso ver – da
atuação étnica na região. A respeito dessa etnia, observamos, desde há algum
tempo, baseados tanto em relatos etnográficos como em bibliografias, tanto nas
mais recentes quanto nas antigas, que a educação é uma área em que os Manchineri têm sabido atuar e conseguido
obter, em seu favor, a amplificação de suas conquistas, fator que indica um
certo protagonismo local, entre as etnias da região, mas não apenas, sendo
também exemplo de luta por melhorias para seu modo de vida; essas conquistas
têm influenciado as ações de outros povos da região.
Para iniciarmos a escrita, partimos do
que a ciência arqueológica já tratou sobre o protagonismo humano da África até
chegarmos à região Por meio de pesquisas arqueológicas, baseadas em vestígios e
marcas deixadas por esses grupos, sabemos que se multiplicaram etnicamente
nessa parte do continente americano (GUAPINDAIA; PEREIRA, 2010), compondo um
caldeirão de culturas ainda em estudos, a fim de se saber quantos foram e/ou
são.
Todos eles, com alguma forma de
protagonismo, deixaram seus modos de comunicar e suas marcas, influenciando os
que viriam posteriormente. Algumas dessas marcas estão estampadas nas rochas da
região amazônica (PEREIRA, 2003; JUSTAMAND, 2012, p. 62) e outras são marcas de
grandes proporções, como os geoglifos (SCHAAN; RANZI; PÄRSSINEM, 2008).
Sabemos, ainda, que nem a floresta, muito lembrada como natural, o é
necessariamente, ou seja, ela existe como a conhecemos, provavelmente, devido à
intervenção de mãos humanas (MAGALHÃES, 2016,
Antes da constituição do Brasil como
Estado, tal como o conhecemos atualmente, houve o processo histórico conhecido
como conquista europeia. Esta trouxe para todo o continente americano – mas, em
especial, para o Brasil – outros formatos de vivência e de entendimento de
mundo, que constitui a visão oriunda dos conquistadores. Essas formas
produziram, na maioria dos casos, tensões, guerras e lutas entre os recém-
chegados (conquistadores/outsiders) e os já estabelecidos, que se encontravam
na região muito antes de 1500, os quais passaram a ser conhecidos como
indígenas.
Muitas etnias indígenas foram
dizimadas por doenças epidêmicas, para as quais não possuíam imunidade, tais
como a varíola, trazida pelos europeus, bem como a malária e a febre amarela,
pelos africanos (MEGGERS, 1987, p. 210).
As lutas, as guerras e os modos de vida
diferentes dos conquistadores em lidar com o meio ambiente e com os povos já
estabelecidos geraram uma dizimação étnica sem precedentes na região amazônica,
no país, no continente, quase pondo fim ao protagonismo indígena amazônico.
O protagonismo que queremos abordar no
presente texto é, em especial, o dos Manchineri. Eles têm mantido relações com
outros povos indígenas supracitados, mas também com toda a sorte de outros não
índios, como os brancos, sempre visando à luta e à manutenção de sua
territorialidade (OLIVEIRA, 2002). O contato com a cultura branca ocorre há
mais de 100 anos na região em que habitam, no entanto, mesmo ocorrendo esse
contato, eles mantêm inalterado seu modo de vida, como por exemplo, rituais,
bem como têm conseguido se inserir na cultura do entorno.
Fronteiras termo de difícil definição, na história
moderna, o conceito foi intensamente associado à noção de soberania. A aparição
da linha fronteiriça acompanhou o desenvolvimento da concepção moderna de
espaço e participou do aperfeiçoamento da cartografia e das estratégias
militares. Com o projeto colonial, a fronteira do Estado foi exportada para
além da Europa e impôs-se ao planeta (Albaret-Schulz et al., 2004).
De modo especial, o mundo latino foi
profundamente marcado por esse sentido, visto que a territorialidade foi
definida como uti possidetis, em primeiro plano e considerado suficiente para
retirar a posse de tupiniquins e depois, com as independências, como posse de
soberanias republicanas. Neste sentido, lembrando os estudos de Boaventura de
Sousa Santos, é possível com ele concordar quando Indica que:
A zona fronteiriça é uma zona híbrida, babélica, onde os contatos se
pulverizam e se ordenam segundo micro
hierarquias pouco suscetíveis de globalização. Em tal zona, são imensas as
possibilidades de identificação e de criação cultural, todas igualmente
superficiais e igualmente subvertíeis: (Santos, 1993: 49)
Na perspectiva modernizante, uma
fronteira é uma linha convencional que marca os confins de um Estado. As
fronteiras podem ser delimitadas fisicamente (com muros ou cercas), embora não
seja sempre esse o caso, daí se falar de convenção: os diferentes países acordam
entre eles até onde chegam os seus respectivos limites; ao atravessar esse
limite (a fronteira), entra-se no território do país vizinho, ferindo sua
autonomia administrativa e subtraindo-lhe um valor físico e valor simbólico.
Esta fronteira, por conseguinte, marca sua
soberania. O governo de um país tem autoridade dentro dos limites das suas
fronteiras. Aquilo que ocorre do lado de lá, ainda que seja a uns poucos metros
de distância, está fora da sua competência territorial, desde que, não sejam
comprometidos os seus interesses nacionais. Às fronteiras podem ser terrestres,
mas também existem fronteiras marítimas, fluviais, lacustres (junto de lagos) e
mesmo aéreas.
Devido ao fato de o povo Manchineri viver em fronteira,
registra-se uma quantidade grande de pessoas que residem tanto no Peru quanto
na Colômbia, de modo que esse povo se relaciona de forma saudável com indivíduos
que moram no país estrangeiro, sem a preocupação do ir e vir, visto que muitos
têm parentes nos dois países.
Residir no Peru e na Bolívia,
para os Manchineri, não é tão favorável, visto que esses países não oferecem
aos povos indígenas os benefícios sociais que o Brasil concede, o que faz com
que muitos migrem e naturalizem-se brasileiros; tal prática é comum na
fronteira.
A situação linguística é estudada por pesquisadores, haja vista se
tratar de uma língua que não possui tronco específico, tornando-se a única no
país; por outro lado, é considerada complexa devido ao fato de possuir vários
glosais que nasalizam palavras, fator que faz com que sua pronúncia se torne
difícil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Tal como apontado anteriormente, os manchineri são habitantes do
área do baixo acre rio Acre e icuria, no Amazonas, na fronteira do Brasil, Bolívia
e Peru. Eles compõem o maior terra indígena de representação populacional de Assis
Brasil. Mesmo após mais de quatro séculos de contato com a sociedade ocidental,
esse povo ainda preserva sua cultura, lutando historicamente pela posse de sua
terra, por atendimento à saúde, por educação e por sua afirmação cultural.
Embora, por vezes, infelizmente, sejam aliciados por movimentos não indígenas
da população envolvente.
A história da criação desse povo passa por um viés mitológico
ímpar, fazendo com que tanto os rituais como as questões linguísticas sejam
únicas, constituindo-se um diferenciador mundial. O seu território guarda um
patrimônio cultural e mítico muito rico, capaz de chamar atenção de muitos
pesquisadores.
Assim como foi apontado, a educação vem sendo conquistada de forma
inconteste. Seja por meio da criação da SEE, que, em parceria com a
Universidade federal do Acre (ufac) vem formando professores para atuarem nas
escolas da rede de educação básica, seja com a presença de muitos estudantes
universitários oriundos dessa etnia protagonista tanto no baixo Acre, como no Assis
e na região fronteiriça tríplice.
Eles têm ainda um espaço privilegiado destinado à guarda
patrimonial de seus artefatos históricos. Ali também se concentra o registro de
suas primeiras comunidades, bem como os utensílios utilizados por eles. É
sempre importante frisar a preservação da língua materna.
REFERÊNCIAS:
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primeiros americanos. Em busca do maior mistério
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Maria. Turma de educação superior indígena do Alto Solimões - AM. Fotografia
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Antropologia no Alto Solimões: diversidade étnica e
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GUAPINDAIA, Vera; PEREIRA, Edithe (Orgs.). Arqueologia Amazônica. v. 1. Belém:
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2010.